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Ney Lopes

Ney Lopes: Começa o futuro incerto da Argentina

Confira a coluna de Ney Lopes deste sábado 9
Ney Lopes
09/12/2023 | 05:40

Javier Milei assume amanhã, 10, a presidência da República da Argentina. Pelo seu estilo inusitado, cabelo bagunçado e jaqueta de couro, há expectativa sobre como irá governar, sobretudo pelas promessas que fez em campanha.

A maior interrogação é saber se Milei irá priorizar apenas as questões ligadas a crise econômica, inflacionária e a percepção de corrupção no poder, ou, assumirá posições negacionistas, em relação a mudança climática, as funções sociais do Estado e isolacionismo na política externa.

Presidente eleito da Argentina, Javier Milei, cumprimenta apoiadores durante ato de campanha - Foto: Instagram / Reprodução

O que se percebe é que o Milei da campanha, não é mais o Milei de hoje. “O Leão” – seu apelido – de repente parou de rugir, Encerrou o primeiro turno, abandonando sua motosserra e moderando a retórica com propostas para os moderados céticos. Conhecido por suas explosões de raiva, deu sinais de calma e abraçou a classe política, depois de ameaçar que iria destruí-la. A mudança de comportamento de Milei lembrou o ex-presidente argentino Carlos Menem, quando declarou: “Se eu tivesse dito o que ia fazer, ninguém teria votado em mim”.

A estratégia deu certo. Falta ver se dará também no governo. Um fato chama a atenção: na próxima terça se encerra a COP 28 (Conferencia sobre mudanças climáticas), na qual a Argentina esteve representada com delegação de onze pessoas do governo Alberto Fernández, que se comprometeu em reduzir desastres climáticos e discutir o financiamento global para alcançar esses objetivos.

Na campanha Milei negou o aquecimento global, mesmo diante de evidências científicas. Entretanto, a Constituição argentina estabelece direitos e deveres sobre a proteção ambiental. Consagra a proteção do meio ambiente como uma obrigação. Portanto, o governo deve fornecer a proteção desse direito, para o uso dos recursos naturais, a preservação do patrimônio natural e cultural, a diversidade biológica, a informação e educação ambiental.

O texto constitucional é abrangente e Milei não disporá de votos no Congresso para modificá-lo. Em razão disso, tornam-se difíceis as suas propostas, dependentes de mudança constitucional, de dolarização da economia, eliminação do Banco Central, porte livre de armas, venda de órgãos de seres humanos, privatização do espaço público, revogação do aborto, casamento igualitário, privatização de estatais e recursos naturais, como a indústria de hidrocarbonetos, os rios e o mar, destruição ou pulverização da justiça social, cortar as relações comerciais com o Brasil e a China por seu impacto nas relações exteriores, para dar apenas alguns exemplos.

As incertezas pairam no ar. O novo presidente argentino chega a Casa Rosada em conflito com o Papa Francisco, que é motivo de orgulho nacional, a quem acusou de “comunista” e “a encarnação do maligno”. Francisco nunca respondeu. A partir de amanhã começará a ser revelada a verdadeira face de Javier Milei, com o início do seu mandato presidencial. Que tudo dê certo, é o que se deseja.