O Brasil é uma democracia jovem e errática. Há cerca de 40 anos, saímos de uma ditadura militar, uma época de trevas em que a tortura, o assassinato, a criminalização da diversidade e do contrário era operada com violência pelo Estado brasileiro e por seus integrantes. Episódio da nossa história em que a liberdade era conceito relativo e que respondia às necessidades de quem comandava com armas, quepe e verde oliva.
Sete anos depois do fim desse trágico capítulo e mais dois presidentes eleitos em seguida, assistimos ao primeiro impeachment de um presidente da República, caso de Fernando Collor de Melo, em 1992. E a partir daí, navegamos por mares relativamente tranquilos, com alternância de poder, de ideologia e pautados por uma previsibilidade mínima pela qual uma Federação ou mesmo seus entes precisam para desenvolver e amadurecer.
Até que, em 2016, a presidenta Dilma Rousseff é retirada do comando do país sob o argumento político-administrativo de praticar “pedaladas fiscais” – que também haviam sido realizadas por seus antecessores, Lula e Fernando Henrique Cardoso, e que não resultaram em qualquer sanção. No plenário do Congresso Nacional, votos pela família, evangélicos, cristãos, prefeitos, correligionários, animais de estimação e pelo condenado por sequestro e tortura, Brilhante Ustra. O embasamento para que o ato resultasse na anulação de 54.501.118 votos legítimos concedidos pela população brasileira se tornou mero detalhe.
A banalização do caos. A necessidade de potencializar o próprio poder por grupos políticos e econômicos desconsidera a importância da integridade do tecido social e do quão vulnerável e frágil pode ser a democracia. Esse breve resgate histórico da construção tropega de nosso ambiente democrático tem importância para a nossa realidade.
Um dia depois de o Governo do RN assistir a derrota na votação do projeto de manutenção da alíquota de 20% ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços), uma corrente da oposição já estaria vislumbrando um ambiente propício a um processo de impeachment da governadora Fátima Bezerra. Entre o dito e o feito, há uma distância intangível. Mas o fato é de que a futilidade com que alguns tratam a política, o Estado, a importância do voto e das eleições é digna dos covardes e corroí por dentro um bem precioso.
Aventar a possibilidade de destituir a govenadora de um Estado – exclusivamente por oportunismo – é o atalho dos covardes que não conseguiram vencer no embate direto. Se fortalecer sobre um corpo ferido, colocar em xeque a estabilidade do estado para atender uma fome voraz de poder é vampirizar a democracia. É aspirar a vitória das mais indignas, a dos covardes que buscam a arena apenas quando creem estar em vantagem.
*Bruno Araújo é jornalista, escritor e especialista em Comunicação Pública